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Ator e dramaturgo Daniel Arcades apresenta Impopstor em Alagoinhas

Foto: Reprodução
“É um alertar para a mistura da fé com o mercado e, consequentemente, sobre onde podemos parar se continuar do jeito que está no país. Não é um espetáculo sobre religião, é manifesto contra os impostores da fé”, descreve Daniel Arcades, ator e dramaturgo de Impopstor, solo a ser apresentado no dia 20 de agosto, no Centro de Cultura de Alagoinhas, município onde nasce o Núcleo Afro Brasileiro de Teatro de Alagoinhas – NATA, do qual o interprete faz parte.

Sob direção de Susan Kalik, o espetáculo integra o NATAS EM SOLOS, que faz parte da programação do OROAFROBUMERANGUE, projeto que conta com o apoio financeiro do Governo do Estado, através do Fundo de Cultura da Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, aprovado no Edital Setorial de Teatro da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), com produção da Modupé Produtora.

O espetáculo chama atenção do nosso olhar para os líderes religiosos e o quão perigoso pode ser colocarmos pessoas que usam a religiosidade como força de poder e manipulação. Hoje, em todas as religiões, é possível encontramos esses manipuladores que fazem do seu poder com a palavra para abusar da fé das pessoas e auferir lucro, poder, controle moral (na moral imposta por eles) e status político”, destaca Kalik.
Enredo
Arcades descreve Impopstor como um work in progress. “O trabalho ganha cada vez elementos de stand-up com personagem. Tem elementos de comédia, de musical e o uso de vídeo. Só não tem uma história. O público é convidado a ver alguns momentos do show de Luttero Lucius e alguns momentos de seus bastidores. É uma lente de aumento nos impopstores da fé, esses sujeitos que querem mais ser popstars a religiosos”, conta o dramaturgo, que ganhou o prêmio de melhor texto no Braskem de Teatro de 2016.

Impopstor é o fragmento de vida de um impostor religioso. É um espetáculo que se passa durante um Talk Show religioso apresentado por Luttero Lúcius, que conduz o programa no caminho de uma grande revelação a ser feita quando houverem 8 milhões de pessoas assistindo o programa.

A família desse apresentador é convidada e enquanto não chega a plateia reconhece as facetas dessa personagem e como funciona o Mercado da Fé. Quais são as estratégias estabelecidas para a expansão dos negócios. Impostores da fé e o seu poder diante da mídia global ficam cara a cara com o espectador neste programa-reunião-peça-encontro pop.

O anúncio? Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. Com a fé e os votos de vocês, eu serei o novo presidente do Brasil. “É importante lembrar que o Brasil é um país laico, que somos um povo formado por muitas religiões e religiosidades e que o religare com Deus ou qualquer outra força divina só pode te aproximar do amor, da união, do respeito. Qualquer fé que te leve a intolerância e violência, não é de Deus não”, ressalta a diretora, que volta aos palcos depois de oito anos, seu último trabalho como encenadora foi Pluft – o fantasminha (2009).

Concepção
Daniel Arcades conta que religião é assunto de grande interesse, seja ela qual for. “Fui criado na igreja católica e me aproximei do candomblé na adolescência. Entretanto, me sinto muito incomodado com a aparição cada vez mais frequente de líderes religiosos na política. Não pelo fato de serem religiosos, mas pela maneira como estão lidando com o poder público, impondo dogmas religiosos e valores que não condizem com grande parte da população”.

Ele acrescenta que Impopstor não é um espetáculo sobre religião, é sobre sujeitos que utilizam a fé como um mercado. “Acho que é bom dizer que tem a ver com a espetacularização da fé. Quis falar sobre esse assunto por ser oportuno o momento, devido a intervenção que ele tem causado nas nossas vidas. Nós que temos religiões diferentes das neopentecostais estamos vendo uma tentativa de invasão no Estado, no mercado e de exclusão de qualquer outro modelo em voga no país”, realça.

Para a construção do solo, o ator e dramaturgo de Impopstor foi a vários templos que têm ligações com televisões e viu de perto como funcionava o ritual do espaço. “De verdade, vi uma construção muito inteligente sobre cenicidade, vi diversas técnicas de marketing e de promoção da autoestima do sujeito que lá se encontra. Não vi apenas com olhos negativos, de verdade. Apesar de saber qual o objetivo daquilo tudo, vi pessoas que acreditam naquilo com uma força tamanha que era bonito de se ver. Infelizmente, sabemos que essa força é usada como massa de manobra para muito impopstores”.

Arcades exclama que deseja alertar para a mistura da fé com o mercado e, consequentemente, sobre onde isso pode parar se continuar do jeito que está no Brasil. “Não sou contra a fé, não sou contra o mercado, mas quando isso produz invisibilidade a outros modos de vida. É preciso perceber que há algo de errado. Não acho um problema as religiões existirem e estarem na mídia, mas acho um problema utilizarem isso para difamar religiões afro-brasileiras, a comunidade LGBT, colocar a mulher em um lugar subalterno”.

OROAFROBUMERANGUE
O projeto Natas em Solos é um projeto artístico-investigativo-formativo que consiste na investigação, montagem e apresentação de seis solos concebidos e realizados pelos intérpretes/criadores do NATA a partir das pesquisas cênicas individuais destes artistas. As temáticas abordadas por estas investigações surgiram através de experimentos cênicos e inquietações artísticas realizadas em paralelo as construções dos espetáculos do grupo. Deste modo após dezoito anos de pesquisas e trabalhos cênicos continuados o NATA decide colocar em cena as inquietações artístico-filosóficas de seus intérpretes/criadores.
As montagens ficam em cartaz de 18 a 27 de agosto (sextas, sábados e domingos). O público poderá conferir ainda os solos Iyá Ilu de Sanara Rocha, Rosas Negras de Fabíola Julia, Gbagbe de Nando Zâmbia, As Bala Que Não Dei Ao Meu Filho de Antônio Marcelo e Mundaréu de Thiago Romero, com ingressos a R$ 20 e R$ 10,00. As apresentações fazem parte do projeto OROAFROBUMERANGUE, que tem o apoio financeiro do Governo do Estado, através do Fundo de Cultura da Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, aprovado no Edital Setorial de Teatro da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb), com produção da Modupé Produtora.


FICHA TÉCNICA
IMPOPSTOR
texto e atuação:
DANIEL ARCADES
direção:
SUSAN KALIK
assist. de direção:
KARLA COIMBRA
direção musical:
ZÉ GOMES NETO
direção de movimento e coreografia:
EDEISE GOMES
iluminação:
NANDO ZÂMBIA
figurino:
ANTÔNIO FÁBIO
produção:
FRANCISCO XAVIER
costura:
SARAÍ REIS
cenotécnico:
ADRIANO PASSOS
vídeos de cena:
MODUPÉ PRODUTORA
fotos de divulgação:
ANDRÉA MAGNONI


EQUIPE NATAS EM SOLOS
coordenação artística:
FERNANDA JÚLIA
cobertura fotográfica:
ANDRÉA MAGNONI
cobertura audiovisual e vídeos promocionais:
THIAGO GOMES
programação visual e ascom:
MODUPÉ PRODUTORA
direção de produção:
SUSAN KALIK
produção executiva:
FRANCISCO XAVIER
realização:
NATA E MODUPÉ PRODUTORA


Da Redação Luciano Reis Notícias

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